Conectados e sozinhos: como a tecnologia está afastando as pessoas
Nunca foi tão fácil falar com alguém, e mesmo assim muita gente nunca se sentiu tão só. No Brasil, eram 144 milhões de perfis em redes sociais em janeiro de 2025, o equivalente a 67,8% da população, segundo o relatório Digital 2025 da DataReportal. As conversas migraram para a tela. O olho no olho, o almoço sem celular na mesa e a visita sem hora marcada ficaram cada vez mais raros.
Para quem estuda a mente humana, isso não é só uma mudança de costume. É uma questão de saúde.
Um problema de saúde pública

Em junho de 2025, a Comissão da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre Conexão Social publicou seu relatório global. Os números assustam: cerca de 1 em cada 6 pessoas no mundo é afetada pela solidão, e o índice é ainda maior entre adolescentes, jovens adultos e moradores de países de baixa renda. Ainda segundo a OMS, a solidão foi associada a mais de 871 mil mortes por ano entre 2014 e 2019, o que dá cerca de 100 mortes por hora.
Em comentário sobre o relatório, a OMS afirmou que a saúde social, a capacidade de criar e manter vínculos humanos significativos, é “tão essencial para o nosso bem-estar quanto a saúde física e mental”.
Dois anos antes, em 2023, o então Cirurgião-Geral dos Estados Unidos, Vivek Murthy, já havia declarado uma “epidemia de solidão” no país. O relatório dele aponta que cerca de metade dos adultos americanos relatava níveis mensuráveis de solidão, mesmo antes da pandemia.
O que a falta de convivência faz com a mente
Do ponto de vista da psicologia e da psiquiatria, o ser humano é um animal social: o cérebro evoluiu para viver em grupo. Quando esse contato falta, o corpo entra em estado de alerta. Segundo o relatório americano, a falta de conexão social aumenta o risco de ansiedade, depressão e demência.
A tecnologia entra nessa história de um jeito traiçoeiro. As redes dão uma sensação de companhia, mas muitas vezes trocam a conversa de verdade pela comparação com vidas editadas. E também roubam tempo de outras coisas: do sono, da atividade física e do encontro presencial.
No livro A Geração Ansiosa (2024), o psicólogo social Jonathan Haidt, da Universidade de Nova York, defende que a troca de uma “infância baseada no brincar” por uma “infância baseada no celular” ajuda a explicar a alta de ansiedade e depressão entre adolescentes. A tese ainda é debatida entre pesquisadores, mas reacendeu no mundo todo a discussão sobre celular nas escolas e redes sociais para menores.
Outro efeito que preocupa especialistas em comportamento é a empatia. Ler expressões, tons de voz e silêncios é uma habilidade que se treina na convivência. Com menos prática presencial, fica mais difícil lidar com conflitos e criar intimidade.
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Valores válidos na data da publicação.
E com o corpo
Os danos não ficam só na cabeça. De acordo com o relatório do Cirurgião-Geral dos EUA, a falta de conexão social pode aumentar o risco de morte prematura tanto quanto fumar até 15 cigarros por dia. O mesmo documento aponta 29% mais risco de doença cardíaca e 32% mais risco de AVC entre pessoas com relações sociais pobres. A OMS acrescenta pressão alta e diabetes à lista, e alerta que, quando o isolamento começa na adolescência, os riscos podem acompanhar a pessoa até a vida adulta.
Como melhorar as relações

A boa notícia, segundo os dois relatórios, é que existem soluções, e muitas começam em casa. Veja o que os especialistas recomendam:
- Crie zonas livres de tela. Refeições e a última hora antes de dormir sem celular melhoram a conversa em família e a qualidade do sono.
- Troque a curtida pela ligação. Mandar um áudio ou ligar para um amigo vale mais do que reagir a um story.
- Marque encontros fixos. Um café semanal, o futebol de domingo, um almoço mensal com a família. A rotina protege o vínculo.
- Escute de verdade. Na conversa, deixe o celular de lado e faça perguntas. Atenção plena é a base da empatia.
- Participe da comunidade. Voluntariado, grupos de igreja, esporte, cursos e associações de bairro aproximam pessoas com interesses em comum.
- Use a tecnologia a seu favor. Videochamadas com parentes distantes e grupos que marcam encontros presenciais são aliados, não inimigos.
- Peça ajuda. Se a solidão vier com tristeza persistente, falta de energia ou ansiedade, procure um psicólogo ou psiquiatra. No SUS, a porta de entrada é a Unidade Básica de Saúde, e o CVV atende de graça pelo telefone 188, 24 horas.
Desligar para se reconectar
Ninguém precisa abandonar o celular. O desafio é usar a tecnologia para aproximar, e não para substituir, as pessoas. Como lembra a OMS, cuidar das relações é cuidar da saúde. Talvez o primeiro passo seja simples: guardar o telefone e perguntar a quem está ao lado como foi o dia.
Fontes
- OMS – Comissão sobre Conexão Social (30/06/2025)
- OMS – Comentário “Loneliness and isolation – the hidden threat to global health”
- OMS/OPAS – Resumo em linguagem simples do relatório
- U.S. Surgeon General – “Our Epidemic of Loneliness and Isolation” (2023)
- HHS – Comunicado do relatório (03/05/2023)
- DataReportal – Digital 2025: Brazil
- Jonathan Haidt – The Anxious Generation
